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A realidade da tuberculose
Dr. Miguel Villar, Assistente Graduado de Pneumologia, Consultor da Direcção-Geral da Saúde para a tuberculose
segunda-feira, 19 de julho de 2010


A tuberculose é uma doença infecto-contagiosa causada por uma bactéria identificada em 1892 por Robert Kock, que lhe deu o nome de Mycobacterium tuberculosis. É a principal causa de morte provocada por uma doença infecciosa curável e representa um problema a nível global.

 

Continua a crescer, em números absolutos, estimando-se em 2008 a ocorrência de 9,4 milhões de casos em todo o mundo, com uma mortalidade de 1,3 milhões de pessoas. A maior parte dos casos de tuberculose ocorre na Ásia (50%) e em África (30%).

 

Como infecção oportunista, a tuberculose é a principal causa de morte nas pessoas com VIH/sida. Dos 9,4 milhões de casos acima referidos, 1,4 milhões estavam co-infectados pelo VIH (15%).

 

Em Portugal, em 2009, ocorreram 2565 casos novos de tuberculose (24,1 casos/100 mil habitantes), representando uma redução de 8% relativamente a 2008. Tem-se assistido, nos últimos 20 anos, a uma redução do número de casos no nosso país, sendo este decréscimo mais sustentado desde 2002. Do número total de casos diagnosticados em 2009 (2756 casos, que inclui casos novos e retratamentos), 15% verificaram-se em estrangeiros, dominando os doentes oriundos de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

 

No que se refere à infecção VIH/sida, a sua prevalência entre as pessoas com tuberculose foi de 13% em 2009, representando a maior prevalência registada em toda a União Europeia.

 

Como se transmite?

Cerca de 70% dos casos de tuberculose diagnosticados são formas pulmonares e, destas, cerca de 50% são bacilíferas, isto é, contagiosas.

 

Estes doentes bacilíferos, ao tossirem, espirrarem ou mesmo falarem, eliminam para o ar uma quantidade maior ou menor de bacilos da tuberculose (conhecidos também por bacilos de Kock), os quais ficam em suspensão durante algum tempo, possibilitando a sua inalação para as vias respiratórias das pessoas que os rodeiam. Se o contacto com estes doentes for prolongado, há a possibilidade de as pessoas serem contagiadas e virem a contrair também uma tuberculose activa, o que dependerá da virulência do bacilo, do estado das defesas da pessoa contagiada ou de ambos.

 

Felizmente, na grande maioria dos casos, não se verifica a evolução para a tuberculose activa.

 

Como se faz a prevenção da tuberculose em Portugal?

 

  1. Vacinação com o BCG a todos os recém-nascidos, estando provado que esta medida protege contra as formas graves da doença (meningites e formas disseminadas). Em Portugal, a cobertura vacinal pelo BCG ronda os 95%, tendo sido a principal responsável pela redução acentuada de casos de tuberculose na criança portuguesa.

 

  1. Rastrear os chamados “grupos de risco acrescido para a tuberculose”, fazendo parte deste grupo, e em primeiro lugar, os contactos próximos dos doentes com tuberculose pulmonar bacilífera. Além destes, é também importante rastrear os toxicodependentes, os portadores de VIH/sida, os reclusos, os sem-abrigo e os profissionais de saúde.

Através destes rastreios, podemos detectar não só novos casos de tuberculose activa, cujo tratamento é prioritário, mas também outros casos a que chamamos       tuberculose latente, situação em que as pessoas não estão doentes mas apenas “infectadas” pelo bacilo. O tratamento destes casos (antigamente chamado quimioprofilaxia) também é importante, particularmente nos grupos etários mais jovens, de modo a evitar a sua progressão para a doença tuberculosa.

 

Para terminar, é importante chamar a atenção de que todas as pessoas com tosse há mais de 2 ou 3 semanas, sem causa aparente, ou que, tendo habitualmente tosse, esta tenha mudado de características, devem rapidamente fazer uma radiografia do tórax, a fim de despistar precocemente uma possível tuberculose ou outras patologias.


© 2007 Jornal do Centro de Saúde
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