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Esquizofrenia
Entre o mundo real e o imaginário
Andreia Pereira
quinta-feira, 1 de outubro de 2009


Em 1911, Eugen Bleuler usou, pela primeira vez, o termo esquizofrenia para definir uma patologia de foro psiquiátrico grave. Esta desordem “caracteriza-se por sintomas positivos (delírios e alucinações), sintomas negativos (falta de vontade e embotamento afectivo) e por quadros de tristeza e desmotivação, acompanhados por problemas de memória e atenção”, indica o Prof. João Marques-Teixeira, psiquiatra, professor da Universidade do Porto e director Clínico do Neurobios – Instituto de Neurociências.

De acordo com os dados disponíveis em Portugal, calcula-se que a esquizofrenia atinja entre 0,4 a 0,6% da população, “sem predominância de género”. O especialista considera que a eclosão dos sintomas agudos tem, geralmente, início depois da adolescência, entre os 18 e os 24 anos.

Apesar de não se conhecerem as causas desta patologia psiquiátrica, suspeita-se que o aparecimento dos primeiros sintomas se deva a razões genéticas. Contudo, João Marques-Teixeira diz que existem “factores ambientais (físicos, infecciosos, psicológicos, traumáticos e tóxicos, nomeadamente com a administração de substâncias de abuso)” que influenciam, sobremaneira, o surgimento da esquizofrenia.

Normalmente, a doença surge com “alterações na percepção ou na expressão da realidade”, muito embora as manifestações mais frequentes sejam as “alucinações visuais ou auditivas”. Esta patologia caracteriza-se, ainda, por “delírios persecutórios, desorganização do pensamento e da linguagem, assim como um grande défice social e profissional”.

 

Diagnóstico precoce é meio caminho para sucesso terapêutico

A esquizofrenia altera, por completo, “as rotinas do seio familiar onde o doente está inserido”. E, dado o impacto da doença, contribui para um desgaste emocional dos entes mais próximos. Embora em algumas situações o internamento hospitalar seja um meio de tratamento, João Marques-Teixeira admite que, de uma maneira geral, salvo raras excepções de elevada gravidade, “o doente diagnosticado e tratado precocemente pode fazer uma vida praticamente normal”.

Contudo, o diagnóstico envolve uma natureza “complexa e longitudinal”. Assim, “a melhor estratégia, perante uma alteração grave e súbita de comportamento de um adolescente ou jovem adulto, é pedir o apoio do médico de família ou de um psiquiatra”, acrescenta.

Caso a medicação seja iniciada numa fase inicial da doença e sem interrupções, “em 75% dos casos há uma resolução positiva, com um prognóstico favorável na resolução das crises”. Mas, para que isto aconteça, é preciso haver um envolvimento e uma psicoeducação do doente e da família.

Para além dos fármacos (“os mais usados, actualmente, dão pelo nome de antipsicóticos atípicos”), decorrentes de avanços científicos que permitiram o desenvolvimento de novas “substâncias eficazes e com menos efeitos acessórios”, os tratamentos também implicam “o treino cognitivo e uma reabilitação psicossocial”. Porém, e apesar de todos os esforços, os clínicos e a família deparam-se com alguns obstáculos na adesão ao tratamento, já que nem sempre “o doente aceita a patologia (porque não tem consciência da mesma)”.

A somar aos factores intrínsecos do doente, “seguem-se as dificuldades de ressocialização” e o estigma da sociedade face à esquizofrenia. “Esta patologia suscita um sentimento de estranheza nas pessoas e induz a uma sensação de perigosidade”, o que se constitui um dos motores de discriminação social. “Os doentes com esquizofrenia sofrem, ainda, de falta de apoios no nosso país.”

 

Vida activa favorece recuperação

O filme “Uma mente brilhante”, lançado em 2001, relatava a vida de John Forbes Nash, um matemático exemplar que, a dada altura do seu percurso profissional, começa a sofrer de alucinações. O diagnóstico confirma a existência de esquizofrenia, o que o obriga a redefinir o seu rumo da sua vida.

Embora a esquizofrenia se confunda com a genialidade, o psiquiatra João Marques-Teixeira afirma que esta relação não passa de um “mito”. Segundo explica, “esta crença resulta, provavelmente, da bizarria comportamental dos génios”. Mas a ligação entre a doença e alguns prodígios intelectuais é a “mesma que existe em outras patologias de foro psiquiátrico”.

No entanto, sofrer de esquizofrenia também não é sinónimo de ignorância ou de debilidade mental. Um estudo dirigido por João Marques-Teixeira procurou precisamente avaliar a capacidade de aprendizagem destes doentes: “Os programas que facilitem a aquisição de estilos de vida mais saudáveis, em conjunto com a terapêutica e as medidas de natureza psicossocial, promovem uma maior integração social.”

Os resultados deste estudo indicam que o grau de satisfação dos doentes face ao papel mais dinâmico que representam na sociedade. “De um modo geral, as variáveis ligadas ao estado emocional e à motivação intrínseca são fundamentais para essa aprendizagem. Tudo o que estimule o doente para uma vida activa e com sentido tem um impacto positivo na evolução da esquizofrenia”, resume. Daí que se reforce a importância de um diagnóstico o mais precoce possível. Só assim se pode dar início a um tratamento adequado, que evite “um curso debilitante e com uma crescente insuficiência social”.


© 2007 Jornal do Centro de Saúde
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